A nova prisão do empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, recolocou no centro do debate público um caso que vem sendo apontado por investigadores como um dos episódios mais graves envolvendo o sistema financeiro brasileiro nos últimos anos. A medida foi determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.
A investigação aponta que o banqueiro teria liderado uma estrutura complexa que envolveria corrupção de agentes públicos, lavagem de dinheiro, monitoramento de críticos e até acesso indevido a bases de dados utilizadas por órgãos de investigação.
A ascensão do Banco Master
O Banco Master é uma instituição financeira que ganhou relevância no mercado brasileiro na última década, principalmente após uma série de operações de expansão e aquisições.
O crescimento do grupo se intensificou a partir de 2018, quando recebeu autorização do Banco Central para adquirir o Banco Máxima, movimento que ampliou sua presença no mercado de crédito e investimentos. Sob o comando de Daniel Vorcaro, o banco passou a atuar em diversas frentes do sistema financeiro, incluindo operações de crédito estruturado, distribuição de investimentos e gestão de ativos.
O avanço rápido da instituição no mercado, porém, passou a chamar a atenção de órgãos reguladores e de setores do próprio sistema financeiro. Segundo investigadores, há indícios de que parte dessa expansão teria ocorrido por meio de práticas irregulares, como ocultação de patrimônio, manipulação de informações regulatórias e utilização de estruturas empresariais para movimentar recursos de origem suspeita.
As primeiras suspeitas e o início das investigações
As suspeitas envolvendo o grupo começaram a ganhar força após análises internas relacionadas à supervisão da instituição financeira.
Desde 2018, procedimentos de acompanhamento já eram realizados sobre o modelo de negócios e a estrutura financeira do banco. Essas apurações administrativas passaram a ganhar contornos criminais quando surgiram indícios de relações indevidas entre integrantes do banco e servidores públicos responsáveis por áreas estratégicas da regulação do sistema financeiro.
A partir desses elementos, a Polícia Federal iniciou a Operação Compliance Zero, que passou a investigar possíveis crimes de fraude financeira, corrupção, lavagem de dinheiro, invasão de sistemas de informação e intimidação de pessoas consideradas críticas aos interesses do grupo.
A nova prisão de Vorcaro
Daniel Vorcaro já havia sido preso em novembro de 2025, durante uma fase anterior da operação, mas acabou sendo liberado posteriormente mediante medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica.
A nova prisão preventiva ocorreu após a apresentação de novas evidências obtidas a partir da análise de um telefone celular apreendido durante as investigações. Os dados extraídos do aparelho indicariam que as atividades investigadas teriam continuado mesmo após a primeira operação policial.
A decisão judicial aponta ainda indícios de que o grupo investigado teria seguido ocultando recursos bilionários em nome de terceiros e atuando para interferir no andamento das investigações.
Como funcionaria o esquema investigado
Os relatórios da investigação descrevem a existência de uma estrutura organizada, com divisão clara de funções entre os integrantes do grupo.
Segundo os investigadores, o esquema operava com diferentes frentes de atuação. Uma delas seria responsável pela movimentação financeira e transferência de recursos, enquanto outra teria como objetivo estabelecer contatos e influência dentro de órgãos públicos.
Haveria ainda um núcleo voltado à ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro, além de um grupo dedicado ao monitoramento de críticos e à obtenção de informações sensíveis relacionadas às investigações.
A estrutura paralela de monitoramento
Um dos elementos que mais chamaram atenção nas apurações foi a existência de um grupo informal conhecido como “A Turma”.
De acordo com as investigações, essa estrutura teria sido criada para realizar atividades como monitoramento de adversários, obtenção de informações sigilosas e acompanhamento de investigações consideradas sensíveis aos interesses do banqueiro.
Os investigadores apontam que o núcleo era coordenado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, responsável por atividades de vigilância e coleta de dados sobre jornalistas, autoridades e outras pessoas relacionadas ao caso.
Acesso ilegal a sistemas de investigação
Outro ponto considerado grave pelas autoridades foi a identificação de acessos indevidos a sistemas restritos utilizados por órgãos de investigação.
As apurações indicam que integrantes do grupo teriam conseguido consultar dados presentes em bases utilizadas por instituições como Polícia Federal, Ministério Público Federal, Interpol e até o FBI.
Segundo a investigação, o acesso teria ocorrido por meio da utilização de credenciais funcionais pertencentes a terceiros, o que teria permitido a consulta a informações protegidas por sigilo institucional.
Relação com servidores do Banco Central
A operação também revelou a existência de contatos diretos entre Daniel Vorcaro e ex-servidores do Banco Central que ocupavam cargos relevantes na área de supervisão do sistema financeiro.
Entre os investigados estão Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do Banco Central, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária.
As investigações apontam que ambos teriam atuado como consultores informais do banqueiro, oferecendo orientações estratégicas sobre processos administrativos envolvendo o Banco Master. Há indícios de que teriam recebido vantagens financeiras em troca de informações privilegiadas relacionadas à atuação do órgão regulador.
Ameaças a jornalistas
As mensagens analisadas durante a investigação também revelaram episódios que ampliaram a gravidade do caso.
Em uma das conversas reproduzidas no processo, Vorcaro aparece comentando uma reportagem considerada negativa para o banco e sugerindo a agressão de um jornalista. A conversa faz referência ao colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.
Em um trecho das mensagens, o empresário afirma que gostaria de “dar um pau nele e quebrar todos os dentes”, o que levou os investigadores a apontarem indícios de tentativa de intimidação contra profissionais da imprensa.
Bloqueio de bilhões em recursos
Outro elemento central da investigação envolve a ocultação de grandes volumes de dinheiro.
Segundo decisão judicial citada nos autos da operação, cerca de R$ 2,2 bilhões teriam sido escondidos em contas vinculadas ao pai de Daniel Vorcaro. Os valores foram bloqueados pela Justiça com o objetivo de preservar recursos que eventualmente possam ser utilizados para ressarcimento de vítimas ou reparação de danos.
Além desse montante, foi autorizado o bloqueio de até R$ 22 bilhões em bens e ativos ligados aos investigados.
Outros investigados no caso
Além do banqueiro, a Justiça também decretou a prisão de outras pessoas apontadas como integrantes da estrutura investigada.
Entre elas estão Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como operador financeiro do grupo; Luiz Phillipi Mourão, responsável pelas atividades de monitoramento e obtenção de informações; e Marilson Roseno, policial federal aposentado que, segundo a investigação, integraria a estrutura de vigilância ligada ao esquema.
A apuração também analisa a participação de empresas que teriam sido utilizadas para movimentar recursos e financiar atividades do grupo.
Repercussão política e institucional
O caso também ganhou repercussão política em Brasília. Daniel Vorcaro havia sido convocado para prestar depoimento na CPI do Crime Organizado, no Senado Federal, justamente no dia em que a nova fase da operação foi deflagrada e sua prisão foi decretada.
O episódio ampliou o debate sobre possíveis falhas na supervisão do sistema financeiro e sobre a influência de grandes grupos econômicos em processos regulatórios. As investigações continuam em andamento e novas fases da operação não estão descartadas.