No mês em que Piracicaba relembra os 60 anos da maior tragédia de sua história – o desmoronamento do edifício Comurba, ocorrido em 6 de novembro de 1964 – o Canal de Piracicaba traz um relato exclusivo e emocionante de Maria Aparecida Arruda, uma das sobreviventes desse triste episódio. O edifício, que abrigava residências, comércios e um cinema, sucumbiu em um desastre que deixou dezenas de mortos e mudou para sempre a história da cidade.

O Barulho do Desmoronamento
“Era mais ou menos 13h quando o prédio fez um barulho, né? Fez um barulhão. Eu estava trabalhando nessa pensão e, na hora que fez o barulho, eu não vi mais nada. Já fiquei soterrada,” relembra dona Maria. “Eu fiquei bem lá embaixo, mas pensei assim: o que será que aconteceu? Escutava conversas e gemidos, muitos gemidos.”

Em meio aos escombros, Maria ouviu a voz de seu patrão, que também havia sobrevivido. Ele a encontrou e iniciou o resgate: “Ele foi me descobrindo,” contou, ainda mostrando sinais de nervosismo ao falar do episódio.
Uma Jovem Trabalhando no Comurba
Dona Maria trabalhava no edifício desde os 11 anos. “Tinha a casa de um médico. Depois a casa opera, a pensão e o cinema. Aí caiu tudo,” recorda. No momento do desabamento, ela estava em uma pensão localizada no prédio.

O Resgate: Dois Policiais e a Santa Casa
Sobre como foi retirada dos escombros, Maria narra: “Eram dois polícias que me pegaram pelo braço. Eu tentava andar, mas não conseguia porque estava toda quebrada. Me levaram para a rua, e todos os carros que passavam levavam a gente para o hospital.”
A poeira que tomou conta do local demorou dias para baixar. “Ninguém enxergava perto do prédio. Meu pai contou que, quando chegou, perguntou de mim e falaram: ‘Se ela não estiver embaixo, está lá na Santa Casa.’”

As Possíveis Causas
A sobrevivente menciona que a estrutura do edifício poderia não ser suficiente para suportar os 14 andares construídos. “Eu lembro que seria 11 andares, mas fizeram 14. O povo fala que o alicerce não aguentou. Um dia antes, já ouvíamos barulhos, parecia um trovão, mas depois ficou quieto. No dia seguinte, tudo caiu.”

60 Anos Depois: Memórias Dolorosas
Mesmo após seis décadas, as lembranças ainda causam dor. Dona Maria diz que evita passar pelo local onde o edifício estava. “Só lembranças ruins. Muita gente morreu, muitos estudantes. É muito ruim passar lá. Fiquei muito tempo sem entrar em prédio.”
Hoje, ela atua como síndica de um edifício baixo e afirma que ainda sente desconforto em relação a prédios altos. “Não gosto muito, mas não tem o que fazer.”
Homenagem aos Heróis do Resgate
Maria também dedica palavras aos policiais e médicos que arriscaram suas vidas no resgate. “Eles foram uns heróis de estarem ali e acudindo todo mundo naquela parte do Comurba que também poderia cair. Eles são divinos.” Contudo, lamenta que, ao longo dos anos, nunca tenham procurado saber de sua condição: “Não perguntaram se eu precisava de algo, nada, nada, nada.”
Uma Mensagem para o Responsável
Quando perguntada sobre o que diria ao responsável pela tragédia, dona Maria hesita, mas desabafa: “Irresponsável, né? Ele sabia o que estava fazendo. Lá tinha um cinema que todo mundo queria ir, e se tivesse no horário do cinema, ‘meia Piracicaba’ poderia morrer.”

Memória e Resiliência
Sessenta anos após o desmoronamento do Comurba, a história de Maria Aparecida Arruda é um testemunho de resiliência. Seu relato emociona e serve como um lembrete das vidas perdidas. Que esta tragédia nunca seja esquecida e que possamos aprender com ela.
