Segurança

Crime cai, mas mortes em ações policiais sobem em SP e reacendem debate sobre modelo de segurança

Enquanto os roubos recuaram 21,4% e os homicídios dolosos seguiram em queda no início de 2026, o número de pessoas mortas por policiais militares em serviço subiu 35,5% no estado de São Paulo. O contraste recoloca no centro da discussão uma pergunta incômoda: a população está mais protegida ou apenas convivendo com outra forma de violência?

Os números mais recentes da segurança pública em São Paulo revelam um cenário de forte contraste. De um lado, o estado registra queda nos principais indicadores criminais. De outro, avança a letalidade policial. O resultado é um debate cada vez mais sensível sobre qual modelo de segurança está sendo entregue à população.

No primeiro bimestre de 2026, o número de pessoas mortas por policiais militares em serviço no estado subiu de 76 para 103 casos, uma alta de 35,5% em comparação com o mesmo período de 2025. Os dados foram reunidos a partir do relatório dinâmico do Ministério Público de São Paulo, por meio do Gaesp, grupo responsável pelo controle externo da atividade policial.

Ao mesmo tempo, os roubos em geral caíram 21,4% no estado entre janeiro e fevereiro. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, as ocorrências passaram de 30.180 para 23.719, o menor patamar da série histórica para o período, iniciada em 2001.

Os homicídios dolosos também seguiram em retração no começo do ano. Em janeiro de 2026, São Paulo registrou 190 boletins de homicídio doloso, uma queda de 11,6% em relação a janeiro do ano anterior, no menor índice da série histórica para o mês, segundo a SSP.

É justamente nesse encontro entre dois movimentos opostos que nasce o principal conflito da pauta. Se os crimes patrimoniais e os homicídios diminuem, por que as mortes em intervenções policiais avançam? A resposta divide governo, entidades de direitos humanos, pesquisadores e parte da opinião pública.

A Secretaria da Segurança Pública afirma que o aumento das mortes em ações policiais está ligado à intensificação do enfrentamento ao crime violento e organizado, com operações de maior complexidade e risco. Em nota enviada à Agência Brasil, a pasta declarou que mantém ações contínuas para reduzir a letalidade, revisar protocolos, capacitar agentes e ampliar o uso de tecnologia, incluindo a modernização e expansão das câmeras corporais.

Já críticos da política estadual afirmam que a redução de crimes não pode ser analisada isoladamente, sem considerar os custos humanos da atuação policial. Na mesma reportagem, o advogado Ariel de Castro Alves, da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, sustenta que uma polícia mais letal não necessariamente produz mais segurança e pode, ao contrário, ampliar a sensação de medo, sobretudo nas periferias.

O debate ganha ainda mais peso quando se observa a tendência recente. Segundo os dados citados pela Agência Brasil com base no Ministério Público, as mortes cometidas por PMs em serviço caíram entre 2019 e 2022, mas voltaram a subir a partir de 2023. Foram 357 mortes em 2023, 653 em 2024 e 703 em 2025.

Outro ponto importante nessa discussão é o papel das câmeras corporais. Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que, nos batalhões que utilizavam câmeras, houve queda de 76,2% na letalidade no período analisado, enquanto nas demais unidades a redução foi menor. O relatório também diz que o enfraquecimento de mecanismos de controle e as mudanças na política de uso da tecnologia coincidiram com a reversão de parte dos resultados anteriores.

Esse dado não encerra a discussão, mas amplia a complexidade dela. A queda dos roubos e dos homicídios pode indicar maior eficiência policial em vários eixos, como inteligência, investigação, policiamento ostensivo e integração entre forças de segurança. Ao mesmo tempo, a alta das mortes em ações policiais sugere que parte desse resultado pode estar sendo acompanhada por mais confronto armado e maior uso letal da força. Essa é uma inferência apoiada pelo contraste entre os indicadores, não uma conclusão causal definitiva.

Na prática, o tema ultrapassa a estatística e entra no campo moral e político. Para uma parcela da população, a redução dos roubos e dos homicídios reforça a percepção de que o endurecimento do combate ao crime tem produzido resultado. Para outra, o avanço da letalidade policial indica que o estado pode estar trocando uma forma de violência por outra, especialmente em territórios mais vulneráveis.

A pergunta que fica é direta e difícil: que tipo de segurança está sendo construída em São Paulo? Uma segurança medida apenas pela queda dos crimes, ou uma segurança que também precisa ser avaliada pelos limites do uso da força por parte do Estado?

No centro desse debate está o cidadão comum, que quer andar com menos medo, mas também espera que a resposta estatal à criminalidade não agrave a violência. Em um cenário em que o crime cai e a letalidade policial sobe, São Paulo exibe melhora em parte dos indicadores, mas ainda longe de encerrar a discussão sobre qual preço está sendo pago por essa redução.

Você se sente mais seguro com a queda dos crimes, mesmo diante do aumento das mortes em ações policiais?

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