Tratamento gratuito e desafios atuais
O tratamento padrão adotado no Brasil segue a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que fornece gratuitamente a Poliquimioterapia (PQT), um esquema combinado de antibióticos utilizado há mais de 40 anos.
Pacientes classificados como paucibacilares realizam o tratamento por seis meses. Já os multibacilares necessitam de doze meses de medicação. Apesar da eficácia, especialistas alertam para o surgimento de cepas resistentes e para casos de falha terapêutica ou recidiva da doença após a conclusão do tratamento.
Avaliação médica e diagnóstico
A avaliação médica envolve exames dermatológicos e neurológicos, além de testes de sensibilidade feitos com instrumentos simples, como monofilamentos de náilon, que ajudam a medir o grau de perda sensorial da pele. O médico também pode solicitar baciloscopia, exames moleculares, ultrassom de nervos periféricos e eletroneuromiografia.
É obrigatória a avaliação de todos os contatos familiares de pacientes diagnosticados com hanseníase, medida fundamental para interromper a cadeia de transmissão.
Confusão com outras doenças
A hanseníase é frequentemente confundida com outras enfermidades, como artrite, artrose, fibromialgia, síndrome do túnel do carpo e diferentes neuropatias. Essa confusão contribui para o atraso no diagnóstico e para o agravamento dos quadros clínicos.
Custos sociais e econômicos
Um estudo realizado em Ribeirão Preto por pesquisadores da USP revelou que, entre 2006 e 2019, o INSS desembolsou cerca de R$ 5 bilhões em benefícios previdenciários relacionados à hanseníase. O dado chama atenção para o impacto econômico de uma doença que é tratável e curável quando diagnosticada precocemente.
Doença negligenciada

Segundo a OMS, a hanseníase faz parte do grupo das chamadas doenças negligenciadas, que atingem populações vulneráveis, geralmente em regiões com dificuldades de acesso à saúde, saneamento, educação e alimentação adequada. Estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivam em áreas afetadas por esse tipo de enfermidade.
Números no Brasil
O Brasil é o segundo país com maior número absoluto de casos de hanseníase no mundo, atrás apenas da Índia. No entanto, lidera o ranking global em taxa de detecção da doença por 100 mil habitantes.
Antes da pandemia, o país registrava cerca de 30 mil novos casos por ano. Após esse período, houve uma queda de mais de 35% nos diagnósticos, não por redução real da doença, mas por falhas na detecção. Em 2023, foram contabilizados 22.773 novos casos, segundo a OMS, representando um aumento de 4% em relação a 2022.
Subdiagnóstico e endemia oculta
A Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) alerta para a existência de uma “endemia oculta” no país, com estimativa de três a cinco vezes mais casos sem diagnóstico ou tratamento. Em regiões onde há capacitação adequada dos profissionais de saúde, o número de diagnósticos aumenta significativamente, evidenciando a necessidade de treinamento e conscientização.
Preconceito ainda presente
Mesmo com avanços científicos, o preconceito ainda é uma das maiores barreiras enfrentadas por pessoas com hanseníase. Em 2019, a SBH entregou à ONU um relatório detalhando práticas discriminatórias no Brasil, incluindo afastamento escolar, exclusão social e até impedimento de contratação profissional, mesmo quando o paciente está em tratamento e não transmite a doença.
Desde 1995, a Lei nº 9.010 proíbe oficialmente o uso do termo “lepra” em documentos públicos, substituindo-o por hanseníase, numa tentativa de combater o estigma histórico associado à doença.
Novas pesquisas e avanços no tratamento
Pesquisadores brasileiros desenvolveram um novo esquema terapêutico combinando antibióticos já disponíveis no mercado, com menor incidência de efeitos adversos e maior eficácia. O estudo, publicado em 2025, mostrou recuperação mais rápida da sensibilidade e melhora dos danos neurológicos já nos primeiros meses de tratamento.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) avalia a inclusão desse novo protocolo no sistema público de saúde.
Tecnologia e inovação no combate à doença
Ferramentas como o Questionário de Suspeição de Hanseníase (QSH), desenvolvido na USP de Ribeirão Preto e adotado pelo SUS, têm ampliado a busca ativa por casos. Mais recentemente, um sistema de inteligência artificial, o MaLeSQs, passou a analisar milhares de questionários por hora, com alta taxa de assertividade.

A cidade de Tambaú (SP) foi a primeira do país a aplicar o QSH em 100% da população acima de cinco anos, tornando-se referência nacional no enfrentamento da doença.
Janeiro Roxo e mobilização nacional
Desde 2015, a campanha “Todos contra a Hanseníase”, promovida pela SBH, intensifica ações de conscientização durante o mês de janeiro, conhecido como Janeiro Roxo. A iniciativa é considerada de baixo custo, altamente replicável e modelo para outros países.
Brasil como referência mundial
O Brasil é reconhecido internacionalmente como referência no enfrentamento da hanseníase, com destaque para o sistema de notificação SINAN, campanhas educativas, capacitação de profissionais e iniciativas inovadoras que unem ciência, tecnologia e políticas públicas.
Em 2025, durante o Congresso Mundial de Hanseníase, o país foi escolhido para sediar a edição de 2028 do evento, que acontecerá no Rio de Janeiro, reforçando o protagonismo brasileiro no combate à doença.