A “novela das frutas” dominou as redes sociais nas últimas semanas. Com diferentes histórias, versões e até durações variadas, esse tipo de conteúdo se adaptou ao formato digital atual, que prioriza vídeos curtos e narrativas rápidas, leves e descontraídas.
Geradas com apoio de inteligência artificial e roteirizadas por pessoas reais, essas produções ganharam uma adaptação voltada à realidade brasileira, misturando situações do cotidiano com humor e elementos que refletem comportamentos da sociedade. Assim, personagens como Abacatudo, Moranguete e Bananildo passaram a “estrelar” histórias que rapidamente viralizaram nas plataformas.
Segundo internautas, o “prompt”, ou inspiração para esse formato, teria surgido a partir de uma adaptação do reality show britânico Love Island para o universo das frutas. A proposta alcançou milhões de visualizações e interações no TikTok, impulsionando a popularização do conteúdo em diferentes versões.
Apesar do sucesso, o fenômeno também levanta um alerta entre pais e especialistas. Para Nicholas Bertolini, psicólogo formado pela Unesp e em Filosofia pela USP, é importante refletir sobre os possíveis impactos desse tipo de consumo, especialmente entre o público infantil.
Com temáticas adultas e enredos mais densos, as histórias abordam diferentes estilos de vida e situações complexas do cotidiano, fugindo da lógica de conteúdos educativos voltados às crianças. Ainda assim, permanecem acessíveis com facilidade nas redes sociais.
“Essas imagens e narrativas podem moldar a compreensão de mundo e naturalizar certas dinâmicas, como violências e agressões. Isso também acontece com adultos, mas as crianças estão particularmente vulneráveis”, afirma o psicólogo.
Segundo Bertolini, as crianças ainda não possuem recursos suficientes para analisar criticamente o que consomem, tanto em relação às histórias quanto às imagens apresentadas.
Ele destaca ainda que produções criadas com inteligência artificial tendem a reproduzir conflitos e comportamentos de forma acrítica. Mesmo com semelhanças às novelas tradicionais, esse tipo de conteúdo pode reforçar, de maneira direta, violências e preconceitos.
“Para as crianças, isso é particularmente nocivo, porque estimula a assimilação de papéis sociais estereotipados, sem espaço ou recursos para reflexão e crítica”, acrescenta o psicólogo.
Além do alerta sobre o tipo de conteúdo, Nicholas também orienta sobre o uso das redes sociais.
“Não é recomendado que crianças tenham livre acesso à internet e às redes sociais, já que a moderação desses conteúdos, tanto pelas plataformas quanto pelas famílias, ainda se mostra insuficiente”, ressalta.
Por outro lado, vale destacar que as redes sociais e plataformas de vídeo também reúnem conteúdos educativos voltados ao desenvolvimento cognitivo infantil. Quando adequados à faixa etária, esses materiais podem contribuir de forma positiva para o aprendizado e o estímulo de habilidades importantes.
De acordo com o mestrando, livros infantis, desenhos e filmes direcionados ao público infantil oferecem recursos simbólicos fundamentais para que as crianças compreendam o mundo e desenvolvam valores.
“A alfabetização midiática é o desenvolvimento da capacidade de acessar, analisar e interpretar as informações disponíveis nos meios de comunicação. Há muitos recursos disponíveis nesse sentido, inclusive na própria internet”, conclui.