Cultura

O fenômeno Tardezinha no seu último ato: a turnê que virou gigante sem que a mídia percebesse

19/12/2025

Juliana Scudeler Salto

Da roda de pagode à megaestrutura internacional, a Tardezinha encerra seu ciclo de 10 anos como um dos maiores movimentos culturais do país, reunindo quase 1 milhão de pessoas em 2025, movimentando centenas de milhões de reais e criando um modelo de espetáculo que a mídia ainda não soube dimensionar.

Há fenômenos culturais que se impõem pela força dos números, pela potência estética ou pela energia coletiva que mobilizam. E há fenômenos tão grandes que, paradoxalmente, se tornam invisíveis talvez por desafiarem o olhar tradicional da mídia.

A Tardezinha é exatamente isso.

Em seu décimo ano, o projeto capitaneado por Thiaguinho encerra sua turnê como um gigante da música e do entretenimento, reunindo mais público que grandes festivais, movimentando cifras milionárias e transformando o pagode em símbolo de identidade nacional contemporânea.

Mesmo assim, análises, ensaios ou reportagens especiais sobre o que a Tardezinha representa de fato são raríssimas. Datas, vendas de ingressos, participações especiais foram noticiadas. O fenômeno em si, porém, permaneceu intocado.

A Tardezinha chega ao seu último ato como o espetáculo que cresceu à sombra da própria grandeza, um produto híbrido que mistura música, memória afetiva, identidade nacional e engenharia logística digna das maiores turnês do mundo.

O que começou como uma roda de pagode no Rio, em meados da década de 2010, ganhou escala ano a ano sem perder a essência: público diverso, repertório afetivo, sol, nostalgia e brasilidade.

Ao longo da década, o projeto evoluiu, de evento ele virou marca, daí posteriormente de marca, tornou-se plataforma cultural e, finalmente, transformou-se em indústria própria.

A fórmula de crescimento do projeto se baseou em três pilares que são o repertório emocional com o pagode dos anos 1990 e 2000, patrimônio afetivo musical de uma geração, o carisma e a identidade de Thiaguinho que compreendeu como poucos o sentimento coletivo despertado por esse repertório e a experiência já que a Tardezinha sempre foi mais do que música e sim é vivência, pertencimento e catarse coletiva.

Nesse ano de 2025, a Tardezinha atingiu maturidade plena, com uma turnê comemorativa de 10 anos que percorreu mais de 20 cidades, invadiu arenas, estádios e parques olímpicos e cruzou o oceano para apresentações em Miami, Lisboa, Luanda e Sydney.

Tudo isso mantendo a assinatura estética que tornou o projeto único: palco 360°, banda robusta, repertório afetivo e sensação de pertencimento coletivo que nenhuma outra experiência no país replicou.

O que a Tardezinha fez foi reposicionar o pagode como pilar da cultura popular contemporânea. O projeto reconectou uma geração inteira com a memória afetiva da música romântica brasileira, a estética da festa de bairro, o simbolismo da comunidade e a alegria coletiva que o gênero carrega.

A Tardezinha ressignificou um gênero que, por muito tempo, foi subestimado pelas camadas mais elitizadas da cobertura cultural. De repente, o pagode virou centro, pauta, produto premium e mais do que isso virou produto exportável.

O silêncio midiático, em parte, se explica pela dificuldade histórica do país em reconhecer como “alta cultura” aquilo que nasce do afeto, da periferia, do cotidiano. Fenômenos afetivos não cabem em métricas convencionais de crítica cultural.

A imprensa divulgou datas, ingressos esgotados, fotos de multidões. Mas os números que definem a grandeza do fenômeno são impressionantes já que 907 mil pessoas participaram da turnê 2025, R$305 milhões movimentados entre bilheteria, consumo, patrocínios e operações paralelas, mais de 100 mil empregos diretos e indiretos gerados, shows de 5 ou mais horas de duração, estrutura técnica comparável a turnês globais e turnê internacional consolidada já estando em países como EUA, Portugal, Angola e Austrália.

A Tardezinha criou um verdadeiro ecossistema cultural com uma cadeia permanente de fornecedores, marca emocional duradoura, estética própria, modelo de produção replicável, comunidade nacional e internacional de fãs e linguagem cultural reconhecível de longe.

Nenhum outro artista brasileiro opera hoje um produto cultural com essa profundidade logística, econômica e afetiva simultaneamente.

A explicação do porque a mídia ainda não percebeu o fenômeno é estrutural. Há a subvalorização do pagode que é gigante em público, mas historicamente invisível na crítica musical, um excesso de afeto já que a Tardezinha privilegia sentimento sobre conceito ou experimentalismo, difícil de enquadrar, a ausência de conflito levando em consideração que não é polêmica, não gera escândalo e a alegria em massa raramente vira pauta profunda, o crescimento rápido sendo que em menos de uma década, passou de nicho a megaevento e a imprensa não acompanhou a virada.

A mídia noticiou datas, ingressos esgotados e participações especiais, mas, falhou em analisar a grandeza do fenômeno.

Os dois últimos shows, o primeiro que aconteceu no último sábado dia 13 de dezembro no Parque Olímpico no Rio de Janeiro e o que acontecerá amanhã, sábado dia 20 de dezembro no Autódromo de Interlagos em São Paulo selam o encerramento da turnê de 10 anos.

Mas este “último ato” não é um fim. É uma pausa estratégica. A Tardezinha retorna em 2028, renovada, reimaginada e pronta para uma segunda década agora com potencial global ainda maior.

A pausa permite recalibrar a marca, elevar o conceito, internacionalizar a estrutura, reposicionar o produto para a próxima década e manter o desejo ativo na base de fãs.

A Tardezinha não é apenas um show. É um caso cultural, um marco da música brasileira, a prova de que o país ainda não sabe medir o tamanho de seus próprios fenômenos.

Thiaguinho criou algo tão grande que virou invisível, tão popular que virou sofisticado, tão afetivo que virou econômico e tão brasileiro que virou universal.

A mídia não percebeu. Mas as quase 1 milhão de pessoas que viveram essa experiência perceberam e reconheceram.

O último ato apenas encerra o primeiro capítulo. A história recomeça em 2028.

Tags:

10 anos - cultura - Fenômeno Cultural - Rafael Zulu - Samba e pagode - Tardezinha - Thiaguinho - Turnê

Escrito por:

Juliana Scudeler Salto

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