Essa frase que dá título a este artigo é de um grande mestre dos saberes da vida, com quem tive a honra de trabalhar e chamar de amigo: o comendador Adney Araújo. A cada dia, essa pergunta faz mais sentido para mim, e vou explicar os motivos. Primeiro, pela simplicidade do autoquestionamento. Segundo, pelo peso moral que ela carrega em nossas vidas. E terceiro, porque, na política, saber responder a essa pergunta faz toda a diferença.
Esse autoquestionamento nos faz perceber a grandeza que ocupamos em determinados ambientes e assuntos. Muitas vezes, não paramos para pensar por que estamos sentados em certas mesas, dialogando com pessoas de alto nível. Acredito que essa falta de valorização própria está intrinsecamente ligada à sociedade racista em que vivemos. Essa dificuldade de reconhecer o próprio valor, nos meus ciclos, é ainda mais presente entre pessoas negras. Eu, como homem negro, infelizmente não fujo à regra. Saber quem você é é essencial para compreender o seu valor e definir o que é aceitável ou não nas relações que você constrói.
O peso moral dessa reflexão também nos faz observar atitudes exageradas ou excessivamente recatadas de terceiros. Às vezes estamos cercados de pessoas que, no ditado popular, “arrota caviar, mas come sardinha”. Entender essas nuances de personalidade ajuda tanto a lidar com egos quanto a administrar relações de forma mais estratégica e consciente.
Na política, esse questionamento se desdobra em diversos espectros. O ator político eleito para o Legislativo precisa ter a consciência de que disputou e conquistou o poder de representar a população. Esse poder não é pequeno: carrega bônus e ônus. Por isso, é fundamental saber se posicionar e se valorizar conforme as situações que surgem. Estar em uma reunião com lideranças de bairro exige uma postura; estar com secretários ou representantes do Executivo exige outra. Cada contexto pede uma condução específica. Essa é uma das principais leituras que esse questionamento provoca. Muitas vezes, o político gasta energia demais com pessoas ou espaços que não trarão retorno proporcional à demanda criada.
Certa vez, conversando com um profissional de marketing político mais experiente, ouvi a seguinte frase: “Você precisa aprender a blefar mais”. Refletindo sobre isso, percebi que só falo ou disputo espaços a partir do que realmente sei fazer. Não blefo dizendo que sei algo que não sei. Mas isso é ruim? Não tenho certeza. Às vezes percebo que pessoas que “blefam mais” acabam saindo na frente. Será esse o modus operandi das relações profissionais? Blefar?
Sei que a carga de se provar como profissional é muito mais pesada para nós, negros, e presencio isso ao longo de toda a minha vida. Ainda assim, eu sei quem sou na ordem do dia — e isso me basta.
Luiz Azal
Especialista em marketing político e eleitoral