Minneapolis, Estados Unidos — Um homem morreu na manhã deste sábado (24/01) após um tiroteio envolvendo agentes federais do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) durante uma operação no sul de Minneapolis. O caso aprofundou a crise entre autoridades locais e o governo federal e ampliou os protestos contra as ações de imigração conduzidas na cidade desde o início do mês.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA confirmou à BBC que um agente federal atirou e matou o homem por volta das 9h (12h no horário de Brasília). Segundo a porta-voz Tricia McLaughlin, os agentes realizavam uma “operação direcionada” contra um imigrante em situação irregular procurado por agressão violenta quando um homem se aproximou portando uma pistola semiautomática calibre 9 mm.
De acordo com a versão oficial, os agentes tentaram desarmar o indivíduo, que teria resistido de forma violenta. “Temendo por sua vida e pela segurança dos demais agentes, um agente disparou em legítima defesa”, afirmou McLaughlin. Socorristas que estavam no local prestaram atendimento imediatamente, mas o homem foi declarado morto no local.
Ainda segundo o Departamento de Segurança Interna, o suspeito estava com dois carregadores adicionais e não portava documentos de identificação. Manifestantes chegaram ao local logo após o tiroteio e, de acordo com o governo federal, teriam tentado obstruir e agredir as forças de segurança.
Autoridades locais, no entanto, contestam a narrativa federal. Em coletiva de imprensa, a prefeitura de Minneapolis informou que a vítima era um homem branco de 31 anos, morador da cidade e cidadão dos Estados Unidos. A polícia local afirmou que ele era proprietário legal de arma de fogo e que sua única interação conhecida com as forças de segurança estava relacionada a multas de estacionamento.
O governador de Minnesota, Tim Walz, classificou o episódio como “mais um tiroteio horrível por agentes federais” e afirmou ter conversado com a Casa Branca exigindo o fim da operação. “Minnesota não aguenta mais. Isso é nauseante. O presidente deve encerrar esta operação e retirar milhares de tropas violentas e sem treinamento do Estado”, escreveu Walz.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, foi ainda mais contundente ao descrever a ofensiva federal como uma “invasão” de agentes mascarados que atuam com impunidade. Ele pediu diretamente ao presidente Donald Trump que “aja como um líder” e destitua os agentes envolvidos.
Após o tiroteio, o local onde manifestantes se reuniram foi declarado como “reunião ilegal”, e a polícia orientou moradores a deixarem a área. Imagens divulgadas pela imprensa mostram confrontos entre manifestantes e forças de segurança no bairro de Whittier.
Vídeos analisados pela BBC Verify mostram o momento em que agentes cercam e derrubam um homem em frente a uma cafeteria na Avenida Nicollet. Um agente aparece golpeando o homem antes de serem ouvidos múltiplos disparos. Em outro vídeo, gravado a poucos metros de distância, é possível ouvir cerca de dez tiros enquanto os agentes recuam.
O Departamento de Segurança Interna divulgou uma foto da arma que afirma ter sido usada pelo homem morto. A BBC informou que ainda não foi possível confirmar a quem a arma pertencia ou onde foi encontrada.
Em publicação na rede Truth Social, o presidente Donald Trump defendeu o trabalho do ICE em Minnesota, compartilhou a imagem da arma e criticou autoridades locais. Sem apresentar provas, Trump também fez acusações de suposta fraude financeira em larga escala no Estado.
Contexto dos protestos
Os protestos em Minneapolis vêm se intensificando desde o dia 7 de janeiro, quando uma mulher de 37 anos, Renee Nicole Good, foi morta a tiros por um agente do ICE durante outra operação de imigração. O governo federal alegou legítima defesa, mas autoridades locais contestam a versão e afirmam que ela não representava ameaça.
Na sexta-feira (23/01), a detenção de um menino de cinco anos durante uma operação anti-imigração também provocou forte reação popular. O caso ampliou a mobilização de grupos comunitários, sindicatos e autoridades municipais contra as ações do ICE.
O FBI conduz as investigações sobre os episódios mais recentes, enquanto Minneapolis segue em clima de forte tensão política e social.